O Estado não gere bem empresas (resta saber se se gere bem a si próprio) mas dentro dessa incompetência há casos dramáticos; é o caso dos Estaleiros de Viana do Castelo. Aliás esta é a opinião prevalecente nas redes sociais e nos comentários online nas páginas da comunicação social – opinião nem sempre expressa com esta elegância.
O caso dos estaleiros arrasta-se há vários governos, tem “culpados” a diversos níveis (nunca se percebeu porque é que o governo dos Açores recusou uma encomenda pronta), envolve a União Europeia (por causa de ajudas indevidas do Estado) e tem tido gestões erráticas e incapazes de resolver o problema. Basicamente, e para encurtar uma longa história, há anos que o Estado português sustenta os seiscentos e tal operários especializados sem conseguir rentabilizar a empresa. A solução agora apresentada, de “concessão” à Martifer, tem a novidade de os operários serem todos despedidos – daí a enorme confusão, aproveitada pelos partidos, pelos sindicatos, por entidades envolvidas na questão e por outras com interesses diversos.
Aguiar Branco não soube fazer? É essa a conclusão que se tira do que é publicado e dito, tanto na comunicação social como na paralela. Mas haveria melhor maneira de fazê-lo? Não há uma única proposta concreta que o prove. Há, sim, inúmeras teorias, conforme as ideologias. Como tem acontecido com outros dossiers (caso das swapps, por exemplo, mas há muitos mais) erros acumulados ao longo de anos e de vários governos vêem desaguar em cima do presente executivo, que nem os consegue resolver bem, nem consegue escapar a culpas que não lhe pertencem. É como uma criança maltratada durante anos que finalmente é entregue a um bom guardião, morre nas suas mãos, e ele apanha a culpa de todos os maus tratos.
Nos CTT as coisas também se complicaram, por uma situação já clássica desta república: os trabalhadores, habituados à letargia da gestão pública, têm medo da privatização. Não há nenhum caso que nos lembremos, nas centenas de privatizações ocorridas desde que se inverteu o processo de nacionalizações, em que os assalariados ficassem satisfeitos. Privatização significa eficiência, avaliações, produtividade, requalificações, despedimentos. Daí que alguns funcionários dos CTT tenham entrado em greve – e em choque com outros funcionários que não queriam fazer greve – o que levou à interferência musculada da polícia. E lá estão os do costume, PCP e BE, a incitar ao barulho, com a desculpa de que estão a defender os interesses dos trabalhadores. Gostava de saber como é que esta agitação defende interesses que não os partidários.
Por mais controlada que a polícia seja, as cenas de contenção dos trabalhadores são sempre mediaticamente fortes, e as televisões adoram acção. Os sindicatos sabem disto e portanto se encarregam de fornecer a mão de obra para a encenação. As redes sociais enchem-se de indignação. O fantasma do fascismo é logo agitado tanto por aqueles que têm más intenções como pelos bem intencionados que não fazem ideia o que seja fascismo verdadeiro.
O partido da oposição, que anda à deriva (ainda mais à deriva do que o Governo, dizem alguns), não toma uma posição firme nestes conflitos, deixando a contestação para os contestatários amadores e profissionais.
Aliás é opinião geral, conforme já aqui disse, que o PS está sem liderança. Mário Soares tinha-o insinuado algumas vezes mas agora – no lançamento de mais um dos seus livros de memórias, perante uma audiência mínima – afirmou sem rebuço que “se o PS tivesse outra liderança estava nos 90% (das preferências do eleitorado).”
O mesmo disse Lobo Xavier na Quadratura do Círculo. António Costa, o mais diplomaticamente possível, afirmou que estava perplexo por ser Mario Soares a dirigir a ofensiva contra o Governo: “O facto representa um grande vazio de iniciativa política, porventura designadamente por parte do PS.” (Presume-se que o “porventura designadamente”, que não acrescentam nada à afirmação, estão ali só para a suavizar…)
O PS ao nível nacional continua dominado pelos socráticos, que detestam Seguro, e este tem os seus apoios nas bases, fundamentais numa eleição mas de pouca utilidade nos jogos de poder em Lisboa.
Numa cultura onde a inveja é um traço dominante, a publicação da lista dos “25 portugueses mais ricos” é uma caixa para a comunicação social, escrita a televisiva, não porque seja de esquerda, mas sim pela cultura católica (aquela história do camelo passar pela agulha) somada aos mantras herdados do PREC. Ontem na SIC dizia-se que “as fortunas dos 25 mais ricos somadas davam para pagar as reduções de salários na função pública”. Hoje o “Diário de Notícias” abre a primeira página com a dizer que estes senhores ganharam 2,3 mil milhões. Parece impossível que jornalistas profissionais se prestem a este tipo de populismo, numa altura em que as pessoas já estão bastante arreliadas com a desigualdade da carga recessiva. Com certeza que a SIC sabe que o valor de uma fortuna é o seu valor em activos, que não correspondem a dinheiro físico, assim como o Diário de Notícias também sabe que as receitas é um valor contabilístico que não significa notas debaixo do colchão.
Esta situação não deixa de se reflectir na blogoesfera, mas de uma forma muito mais mitigada. Se a questão entre ricos e pobres é falada, trata-se muito mais da encíclica do Papa Francisco do que das desigualdades em Portugal. De facto, mesmo em redes sociais maioritariamente agnósticas e anti-clericais, causa um certo impacto que o papa venha falar nestes termos:
“Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa "educação" que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos vêem crescer este cancro social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países - nos seus Governos, empresários e instituições - seja qual for a ideologia política dos governantes." (copiado de um blogue).
Tudo parece indicar que as pessoas (leia-se: a classe média) se está a adaptar psicologicamente à situação de carência – o que não quer dizer que não se queixe abundantemente do Governo, mesmo quando compreende que estamos sob o diktat da troika (ou da Alemanha, conforme os pontos de vista). No entanto essas queixas são imateriais – quer dizer, não se nota nas redes nenhuma simpatia por invasões de ministérios e quejandos (excepto nos grupos da esquerda radical, sempre à espera da “Revolução”). Há até um grande cepticismo e uma certa maldade em relação às necessidades dos manifestantes. Veja-se, por exemplo, estas duas frases, colocadas na rede por pessoas que as ouviram nas manifestações (na TV) se sentem chocadas com elas:
“Fui obrigada a começar a trabalhar, porque o Governo deixou de nos ajudar!”
“Não ando à procura de trabalho porque, se arranjar, perco o subsídio.”
As pessoas mais simples, ou não sabem exprimir-se ou não têm tento na língua e sai-lhes estas “´pérolas”.
Ou seja, é difícil dizer que parte do desemprego é culpa das políticas recessivas e que parte advem da falta de vontade de trabalhar.